Com a devida vénia, transcrevemos do jornal VALOR ECONÓMICO (link não disponível) o interessante artigo "O novo português chega em 2009" publicado em 6 de Junho, de Rosângela Bittar:
Quase 20 anos depois do primeiro entendimento de filólogos e demais especialistas em torno do acordo ortográfico, que acabou sendo assinado em 1990 pelos chefes de Estado dos países de língua portuguesa, vai-se aproximando a data de real entrada em vigor da nova língua, e o Brasil corre para adaptar-se à norma cuja característica básica é aproximar o português falado no Brasil daquele que é falado em Portugal.
Em 89, houve o primeiro entendimento; em 90, o acordo; em 95, o acordo foi aprovado no Brasil, depois de já ter sido em Portugal. Havia, porém, uma contradição no texto: o acordo deveria entrar em vigor em 94, mas ao mesmo tempo teria que ser aprovado pelo Congresso de todos os países. Resultado: as regras eram incompatíveis. Foi elaborado, então, um protocolo modificativo que suprimiu uma data para entrada em vigor. O acordo já tinha sido aprovado por Portugal, Brasil e Cabo Verde. O protocolo modificativo já foi aprovado por Brasil, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. No Brasil, o acordo foi aprovado em 1995, e sua modificação, com a eliminação da data de entrada em vigor, em 2002, pelas duas Casas do Congresso. Tecnicamente, o acordo já pode entrar em vigor, porque uma regra da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), onde o Brasil é representado pelo embaixador Lauro Moreira, diz que quando três países concordam com uma medida, está produzida a decisão de consenso e os demais acompanham. A CPLP é de 94, e o Timor Leste, que não existia, já entrou para a comunidade concordando com os acordos existentes. Depois de passar por cinco presidentes - José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e agora Luiz Inácio Lula da Silva - os empurrões e aceleração dos preparativos que as autoridades de todos os países estão dando agora podem fazer com que a nova ortografia entre em vigor em 2009. A princípio, a Academia Brasileira de Letras esperava vê-lo implantado em 2008, mas os levantamentos sobre dificuldades e impacto da nova língua em todos os países estão indicando que não dá. No Brasil, por exemplo, o livro didático que vai ser usado no ano letivo de 2008 já foi contratado este ano, e o que está em uso agora foi comprado no ano passado. Mas até 2009 será possível perfeitamente cada país adaptar seu sistema educativo e de comunicação. "Uma só ortografia vai facilitar a circulação de livros, materiais educativos, professores, alunos, intercâmbio, cooperação. Vai beneficiar, principalmente, os países africanos, que desejam aumentar a cooperação com o Brasil, têm muitos estudantes aqui mas seguem a norma portuguesa para o ensino da língua", afirma o coordenador das providências para o acordo entrar em vigor no Brasil, Carlos Alberto Xavier, assessor especial do ministro da Educação, Fernando Haddad. Claro exemplo de benefício desta unificação é o próprio dicionário de Antonio Houaiss, que representou o Brasil na formulação do acordo. Editado no Brasil e em Portugal com o apoio dos governos, o dicionário tem quatro volumes lá e um volume aqui. A palavra úmido por exemplo, está escrita com u aqui e com h em Portugal, com a mesma definição nos dois casos. A edição e circulação dos livros ficará facilitada com a unificação, afirma Xavier. Com a entrada em vigor do acordo, 98% das diferenças ficarão resolvidas. Permanecerão como eram, diferentes, questões que, mais do que ortográficas, são culturais. Os portugueses, por exemplo, não deixarão de falar António, com o o aberto e acentuado, enquanto os brasileiros continuarão falando Antônio, com o o fechado e circunflexo. As mudanças atingirão, no Brasil, 0,5% do total de palavras mais usadas, e em Portugal mudarão 1,6%. Os dicionários maiores do Brasil têm cerca de 380 mil palavras; os dicionários escolares estão na ponta oposta, com umas 30 mil palavras em média. Segundo os cálculos dos estudos de adaptação que estão sendo feitos no MEC, 200 mil palavras fazem um bom dicionário, e meio por cento disto são 10 mil palavras. Estas seriam as que sofreriam mudanças. "Mudar a grafia de 10 mil, em um universo de 200 mil, não é muito", avalia Carlos Alberto Xavier. A nova ortografia, aprovada há quase 20 anos, já ficou esquecida e, com a aproximação de sua entrada em vigor, devem se multiplicar as edições de obras explicativas para o público em geral e de obras didáticas para professores e alunos. Uma das primeiras, a Nova Ortografia da Língua Portuguesa, de Antonio Houaiss, editora Ática, publicada em 1991, está esgotada. As modificações, lembra Xavier, serão feitas em "21 bases". Para rememorar grupos de mudanças: uma das bases é o hífen. O traço cai para um bom número de palavras, como mandachuva e paraquedas, que designam um ser ou objeto único. O trema fica praticamente extinto. Não existirá mais em palavras como linguística, cinquenta, tranquilo. Poderá ser usado apenas em palavras derivadas de outras, da língua estrangeira, que possuem o sinal. Palavras acentuadas no português do Brasil perderão o acento: vôo e enjôo, por exemplo. Caem também os acentos de palavras que contenham os ditongos eie oi, como "idéia", "jibóia", "assembléia". O alfabeto, atualmente com 23 letras, ganha mais 3: k, y, w. A dupla grafia é outra das 21 bases do acordo, e será admitida em muitas palavras para manter as características culturais da língua, como cômodo (Brasil) e cómodo (Portugal), gênio (Brasil) e génio (Portugal). O Ministério da Educação vem acelerando os estudos tendo no horizonte a data de janeiro de 2009 para a entrada em vigor da nova ortografia. "O prestígio internacional da língua é também um objetivo, para facilitação da cooperação e do intercâmbio entre os usuários. O que interessa não é só a língua falada nos oito países (Brasil, Portugal, cinco africanos e Timor Leste), mas todas as comunidades usuárias da língua portuguesa espalhadas pelos cinco continentes", diz Xavier.